Outro dia vi um tweet que resumia numa frase uma coisa que eu venho sentindo há mais de um ano: code is cheap now, finished code is not. Código ficou barato. Código pronto, não.
Quem já usou uma dessas ferramentas de IA para programar sabe do que estou falando. Você descreve o que quer e numa tarde tem uma tela funcionando, um cadastro, um relatório. O que antes levava semanas sai em horas. A sensação é de que o produto está quase pronto. E é justamente aí que mora o problema.
Porque o "quase" é mentiroso. A IA leva você do zero aos 80% numa velocidade que ainda me impressiona. Só que os 20% que faltam não são 20% do trabalho. Às vezes são a maior parte dele. E às vezes levam meses, mesmo com toda a inteligência artificial do mundo ajudando.
De onde veio a frase
O tweet era sobre uma aula do Laurence Moroney em Stanford. Ele foi durante anos o rosto do Google para quem queria aprender IA, hoje dirige a área de IA na Arm, e passou uma hora falando com os alunos do curso do Andrew Ng sobre exatamente esse abismo entre o código que sai da máquina e o produto que alguém usa.
A frase dele que ficou na minha cabeça: tudo que você coloca no ar é dívida. Não importa o quanto o código seja bom. Vai ter bug para corrigir, gente para dar suporte, documentação para escrever, funcionalidade nova para encaixar, alguém que vai precisar entender aquilo depois que você sair. O único jeito de não ter dívida técnica é não construir nada.
Ele compara com dinheiro emprestado. Financiar uma casa é dívida boa: você paga o dobro em trinta anos, mas sai com uma casa. Um tênis no cartão de crédito é dívida ruim: custou 200, você paga 500 e fica com um tênis. A pergunta nunca foi se a coisa é legal de construir. É se ela vale a dívida que você acabou de assinar.
E a IA mudou uma coisa muito específica nessa conta. Ela derrubou o custo de assinar a dívida. Não derrubou o custo de pagar.
Os 80% que aparecem e os 20% que ninguém vê
Os 80% que a IA faz bem são os 80% visíveis. Tela, formulário, botão, listagem, gráfico. É o que aparece na demo, o que dá para tirar print e mandar no grupo. E é sinceramente impressionante. Coisa que eu levava um dia inteiro para fazer sai em vinte minutos.
Só que os 80% visíveis nunca foram a parte difícil de um produto. Eram a parte trabalhosa. Difícil e trabalhoso são coisas diferentes. Trabalhoso a máquina resolve. Difícil, ainda não.
Os 20% que faltam são tudo aquilo que a demo esconde:
- Os casos de canto. O usuário que digita o CPF com ponto, o pedido que foi pago duas vezes, a internet que caiu no meio do upload. A versão feliz do fluxo a IA escreve em minutos. As outras quarenta versões é que consomem as semanas.
- A integração com o mundo real. O sistema de pagamento que devolve um erro que não está na documentação. A nota fiscal que a prefeitura rejeita por um motivo que ninguém entende. A planilha do cliente que veio com uma coluna a mais.
- A segurança. Código gerado rápido tende a funcionar e a estar aberto. Quem garante que um usuário não enxerga os dados do outro?
- A operação. Servidor, backup, monitoramento, o que acontece às três da manhã quando cai. E a conta de infraestrutura, que cresce junto com o uso.
- A decisão. Essa é a mais cara e a mais invisível. O que entra e o que fica de fora. O que o botão faz quando o estoque está zerado. Quem pode aprovar o quê. Cada pergunta dessas é pequena, mas são centenas, e a IA não responde nenhuma por você. Ela responde a que você fizer, com toda a confiança do mundo, inclusive quando você fez a pergunta errada.
Existe um efeito colateral engraçado nisso tudo. Como os 80% saem rápido, a expectativa sobre os 20% fica torta. Se numa semana estava "quase pronto", por que dois meses depois ainda não lançou? A resposta é que "quase pronto" nunca foi uma medida do trabalho que falta. Era uma medida de quanto dava para ver.
A IA derrubou o preço de começar. O preço de terminar continua o mesmo, só que agora ele está mais escondido.
Por que os 20% demoram mesmo com IA
Eu uso IA todo dia para programar. Isso aqui não é saudosismo de quem prefere fazer na mão. A questão é que os 20% finais são feitos de um tipo de trabalho diferente.
Os 80% são trabalho de geração: descrever, gerar, olhar, aceitar. Os 20% são trabalho de julgamento: descobrir que o problema existe, entender por que existe, decidir o que fazer com ele e conferir se a correção não quebrou outra coisa. A IA ajuda em cada um desses passos. Mas não elimina nenhum, porque a parte demorada de cada um é você. É o tempo de testar com dado de verdade, de esperar o cliente reproduzir o erro, de perceber que a regra de negócio que parecia óbvia tem três exceções que ninguém tinha contado.
E tem o outro lado, que o Moroney chama de espaguete. Código gerado em volume, por alguém que não leu tudo, vira um sistema que ninguém entende inteiro. Cada correção nos 20% fica mais lenta porque o terreno é desconhecido. A dívida que era barata de assinar começa a cobrar juros.
O CEO que queria um agente
A parte da palestra que eu mais gostei nem é sobre código. Um CEO europeu chamou o Moroney e pediu: constrói um agente de IA para a gente. Ele perguntou por quê. O CEO tinha lido sobre agentes no LinkedIn. Perguntou de novo. E de novo. Três camadas depois apareceu o problema de verdade: os vendedores gastavam 80% do tempo pesquisando prospect em vez de vender. A palavra "IA" não aparecia em lugar nenhum do problema.
O que foi entregue devolveu de 10 a 15% da semana de cada vendedor. Eles passaram a vender mais e a ganhar mais comissão. Não era o agente que o CEO pediu. Era o produto certo.
É a mesma lição dos 20%. A parte cara não é construir. É saber o que construir, e ter certeza de que construiu aquilo. Isso não ficou mais barato com a IA. Talvez tenha ficado até mais caro, porque agora é muito fácil construir a coisa errada em tempo recorde.
O que isso muda para quem contrata
Se você está contratando um sistema, três coisas ficaram diferentes de uns dois anos para cá:
- Desconfie do "quase pronto". Peça para ver o que acontece quando dá errado, e não só quando dá certo. Um produto se mede pelos caminhos tortos.
- Pergunte sobre os 20%. Testes, segurança, quem opera, o que acontece quando cai. É aí que o orçamento honesto se separa do orçamento barato.
- Gaste mais tempo na pergunta. Se construir ficou barato, decidir o que construir virou a parte mais valiosa do projeto. Não pule essa etapa para chegar logo na demo.
Aqui na ChavesTech a IA faz parte do dia a dia, e eu não tenho nenhuma vergonha disso. Ela deixou os 80% mais rápidos e mais baratos, e esse ganho vai para o seu orçamento. Mas o que você contrata continua sendo os 20%. E como você fala direto com quem desenvolve, a conversa sobre o que falta para terminar é uma conversa de verdade, sem alguém no meio dizendo "está quase" só porque a demo ficou bonita.
