Faz um teste. Pergunta pra sua equipe quem já colou um contrato, uma planilha de clientes ou uma conversa de WhatsApp num chat de IA pra "dar uma resumida". Se ninguém levantar a mão, é porque ninguém quis contar. Isso está acontecendo em toda empresa, com ou sem política, e na maioria das vezes com a melhor das intenções.
O problema é que a pergunta "pra onde vai isso?" quase nunca é feita. E nas últimas semanas as próprias empresas de IA deram sinais claros de que ela importa.
O que mudou nas últimas semanas
Três coisas, vindas de lugares diferentes:
- A OpenAI reforçou o "Zero Data Retention" pros modelos de ponta: pra cliente da API com contrato, nada do que você manda ou recebe fica guardado depois de processado, funcionário não vê, e nada vai pra treino sem você autorizar. Detalhe importante: isso é pra API, com contrato. Não é a versão gratuita do chat que o seu estagiário usa no celular.
- A Anthropic publicou como funciona a marca d'água nos textos do Claude e a posição dela sobre modelos de pesos abertos. O mercado está discutindo o que é rastreável e o que pode rodar fora da nuvem deles.
- Laurence Moroney, numa aula em Stanford, foi direto: estúdios de cinema e escritórios de advocacia "absolutamente não" vão mandar a propriedade intelectual deles pra um modelo hospedado por terceiro. A aposta dele é em modelos pequenos rodando dentro da empresa.
Três sinais apontando pro mesmo lugar: onde o dado é processado virou decisão de negócio, e não detalhe técnico que alguém resolve depois.
Os três níveis, do mais exposto ao mais seguro
- Chat gratuito ou conta pessoal. Por padrão, o que você manda pode ficar guardado e pode ser usado pra treinar o modelo, dependendo da configuração. Sem contrato, sem garantia. Pra dado de cliente, nunca. Pra rascunho de texto de marketing, tudo bem.
- Plano empresarial ou API com contrato. O dado não treina, a retenção é limitada ou zero, e existe um documento assinado dizendo isso. Serve pra maioria das empresas e custa pouco perto do risco que elimina. O que olhar no contrato: se o dado é usado pra treino (tem que ser não), por quanto tempo fica guardado, em qual país ficam os servidores, e quem mais processa o dado por trás (os tais suboperadores).
- Modelo rodando na sua infraestrutura. O dado não sai de casa. Modelos pequenos hoje resolvem muita coisa: classificar, resumir, extrair informação de documento. Custa mais e exige alguém pra manter. Faz sentido quando o dado é o próprio negócio: escritório de advocacia, clínica, contabilidade.
E tem o nível zero, que não está na lista: não mandar. Muita coisa não precisa de IA, e a forma mais barata de proteger um dado é não tirar ele do lugar.
O que não é problema
Antes que isso vire pânico: a maior parte do uso de IA na empresa é tranquila. Escrever um post pro Instagram, reformular um e-mail, entender um termo técnico, montar uma apresentação com dado que já é público. Nada disso envolve dado de cliente, e proibir esse uso só deixa a empresa mais lenta que a concorrente.
O risco é específico. Ele aparece quando o que vai pro chat identifica uma pessoa, revela um número que a empresa não publica ou expõe algo que você prometeu guardar. Contrato, folha de pagamento, prontuário, base de clientes, código do sistema. É essa lista que precisa de regra. O resto precisa de bom senso.
Onde a LGPD entra
Dado pessoal de cliente colado num serviço fora do país, sem base legal e sem contrato, é compartilhamento com terceiro. A ANPD não aceita "foi só pra resumir". Você é o controlador do dado. O fornecedor de IA é operador, e você precisa de um contrato com ele que diga exatamente isso. O plano empresarial das ferramentas grandes costuma vir com esse contrato pronto. A conta gratuita não vem com nada.
Não é a IA que vaza o dado. É a ausência de uma decisão sobre onde ele pode ir.
O que eu faria esta semana
Isso não precisa virar projeto nem contratar consultoria. São quatro passos, e dá pra fazer os três primeiros em uma tarde:
- Escrever uma página de regras. Não um manual, uma página. O que pode ir pra IA, o que não pode, e em qual ferramenta cada tipo de coisa vai. Em português de gente, colada onde a equipe vê todo dia.
- Contratar a versão empresarial da ferramenta que o time já usa. Proibir não funciona. As pessoas continuam usando, só que escondido, e aí você perde até a chance de saber o que está saindo. O plano com contrato custa bem menos que um único vazamento.
- Separar o dado em quatro caixas: público, interno, de cliente e sensível. As duas primeiras podem ir pra ferramenta geral. As duas últimas só vão pra onde existe contrato, e se não existe, não vão.
- Se o seu negócio é feito de dado sensível, vale uma conversa sobre rodar um modelo dentro de casa. Está muito mais acessível do que parece, e o Moroney não é o único apostando nisso.
Eu uso IA todo dia, inclusive com código de cliente. É justamente por isso que essas regras estão escritas aqui e eu sei em qual dos três níveis está cada ferramenta que eu uso. Quando um cliente pergunta "o código do meu sistema passa por onde?", a resposta tem nome de ferramenta, nome de plano e o que fica guardado. Você fala direto com quem desenvolve, então essa pergunta tem resposta técnica de verdade, e não um "a gente segue as melhores práticas do mercado".
