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Inteligência Artificial

Pokémon em 3D e Minecraft dentro do Elden Ring: o que a IA está fazendo com os jogos antigos

Agentes de IA estão juntando jogos que nunca foram feitos pra conversar e refazendo clássicos do Game Boy em 3D. O que impressiona no vídeo e o que falta pra virar algo jogável dizem muito sobre software de empresa.

Guilherme Chaves6 min de leitura
Pokémon em 3D e Minecraft dentro do Elden Ring: o que a IA está fazendo com os jogos antigos

Passei a semana caindo em vídeo de jogo que não deveria existir. Minecraft rodando dentro do Elden Ring, com os blocos e o pulinho quadrado no meio das ruínas. Mario de 64 polígonos correndo pelo mesmo mapa. Skate 3 dentro do Call of Duty e, numa versão ainda mais doida, Skate 3 dentro do Call of Duty dentro do Minecraft. Mario Kart com os zumbis do World at War. Em quase todos, a legenda dizia a mesma coisa: feito com um agente de IA num fim de semana.

Tem um que me prendeu mais que os outros. Um modder chamado Dryxio colocou GTA III, Vice City e San Andreas rodando ao mesmo tempo, num processo só, e ligou os três por portais. Cada portal é uma textura viva: o outro jogo está de fato rodando ali atrás, com trânsito, física e polícia, e dá pra atirar de Los Santos e acertar um pedestre em Vice City. Foi em julho, e ele não contou se usou IA. Os vídeos que vieram depois tentam o mesmo truque com ajuda de agente.

O Pokémon foi mais longe. Um projeto chamado Gen1Recomp recriou Red, Blue e Yellow do zero em Lua, sem emulador nenhum: você entrega a sua ROM original, ele extrai os dados e descarta o arquivo. Em cima dele, um mod chamado Dramatic Shape transformou o mapa chapado do Game Boy num diorama de voxels, com sombra, reflexo na água e ciclo de dia e noite, aquele visual HD-2D de Octopath. Em agosto ganhou primeira pessoa e até VR. Semanas depois apareceu outro mod que troca os sprites pelos modelos 3D do Pokémon Stadium, no mapa e na batalha. É o Kanto de 1996 com a cara que a gente imaginava aos dez anos.

Eu fiquei um tempo só olhando. Depois fui ler como cada um foi feito.

Como isso está sendo feito

A ferramenta por trás de boa parte dos vídeos é um projeto aberto chamado Universal Modder. É um conjunto de instruções pro Claude Code que ensina o agente a modificar quase qualquer jogo de PC: descobrir qual engine o jogo usa, abrir o binário com Ghidra ou ILSpy, montar um laboratório com os saves copiados, escrever um protótipo, gerar sprites e modelos por IA, testar dentro do jogo rodando, gravar o vídeo e documentar o que aprendeu pro próximo agente. Dez passos, com cartilha pronta pra doze engines. Quem fez colocou Minecraft dentro do GTA V conversando por WebSocket, e uma civilização de robotáxis no Age of Empires II.

O que mudou de dois anos pra cá é o custo da parte chata. Engenharia reversa, conversão de formato de arquivo, ponte entre duas engines que nunca foram feitas pra conversar. Isso era meses de trabalho de gente muito especializada. Agora um agente faz a parte braçal em horas. Alguém portou o Super Smash Bros. do Nintendo 64 pro Windows em cerca de um mês mandando o Claude trabalhar em cima da ROM. Um projeto de descompilação de um jogo de Game Boy Advance de 2001, coisa que costumava levar anos, está com metade do código recuperado.

O que o vídeo não mostra

A Kotaku publicou na semana passada um texto com um título que resume o outro lado: "modders, por favor, parem de colocar jogos dentro de outros jogos com IA". O argumento da autora: esses jogos têm sistemas desenhados pra se alimentar uns dos outros, e arrancar a mecânica de um pra jogar dentro do outro sem nenhum trabalho de design dá um resultado "incoerente e injogável". Ela também reparou, e eu confirmei, que a maioria desses mods não existe pra baixar. São clipes no Twitter, "provavelmente subidos na pressa assim que o Claude terminou".

É o mesmo abismo dos 80% que eu já escrevi aqui. O clipe de trinta segundos é a demo. Ele impressiona porque mostra a parte que o agente faz bem: juntar duas coisas e fazer rodar. Um mod que alguém consiga instalar, que não trave, que tenha um jogo de verdade ali dentro, é a outra metade, e essa metade continua sendo trabalho de gente.

O caso do Pokémon

O Gen1Recomp é a exceção. Ele dá pra baixar, roda em PC e celular, tem comunidade e recebeu mods de terceiros. Quando a internet decidiu que ele tinha sido "feito pelo Claude", o autor, que assina como bryanthaboi, respondeu com uma distinção que eu assinaria embaixo: "não, o recomp não foi feito com Claude. São duas frases diferentes, e o problema é que a maioria das pessoas ouve as duas como uma só. Usar IA é igual a vibe coding. Isso não é verdade. Pode ser, mas neste caso não é."

Ele é desenvolvedor profissional, usou IA como usa no trabalho, e o motor do jogo é Lua escrita e lida por ele, portada das desmontagens que a comunidade pret mantém há anos. Os dois lados usaram IA. A diferença entre o Gen1Recomp e o Minecraft dentro do Elden Ring está em quem leu o resultado, quem testou e quem responde quando quebra. É a mesma pergunta do post sobre o DHH, só que agora com Pikachu.

Os dois mods usaram IA. Um virou produto porque alguém leu o que a IA fez. O outro virou um clipe.

O que isso tem a ver com a sua empresa

Você provavelmente não vai colocar Minecraft dentro do seu ERP. Mas a cena dos mods é um laboratório adiantado do que está chegando em software de empresa, e dá pra tirar três coisas dela desde já:

  • Integração ficou barata. Ligar dois sistemas que nunca foram feitos pra conversar era a parte cara de muito projeto. Se um agente liga GTA III a San Andreas por portal, ele liga o seu sistema de pedidos à transportadora. A pergunta deixou de ser "dá pra integrar?" e passou a ser "o que acontece quando a integração erra?".
  • Demo e entrega são coisas diferentes. Vai chegar na sua mesa proposta com vídeo bonito de coisa que "a IA fez em um dia". Pergunte se dá pra instalar, quem testou e o que acontece com dado real. O clipe do Twitter também rodava.
  • Recuperar sistema antigo virou viável. Se alguém descompila metade de um jogo de 2001 com agente, dá pra entender aquele sistema de 2009 que ninguém na sua empresa sabe mais como funciona. Ler primeiro, antes de decidir se reescreve.

A parte legal eu já tratei no post da Casa Branca: o Gen1Recomp só segue de pé porque não distribui nada da Nintendo. Você traz a sua ROM. Os mods de Elden Ring e Minecraft mexem em jogos que os modders compraram. Quando a IA deixa tudo fácil de misturar, a pergunta "de quem é isso?" fica ainda mais importante.

Quando um cliente me traz um sistema antigo pra integrar ou recuperar, o primeiro passo aqui é o mesmo do modder sério: abrir, ler e entender o que existe antes de prometer qualquer coisa. E como você fala direto com quem desenvolve, o que volta pra você é o que foi encontrado lá dentro, com as partes feias incluídas.

Fontes

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